Rafael leite, nasceu em Pesqueira, mas cresceu e vive até hoje na cidade de Poção

O jovem artesão reproduz artes modernistas e gravuras utilizando a renda renascença como matéria-prima.

Procurado por nós, Rafael nos contou com detalhes um pouquinho da sua história.

Confira:

Me chamo Rafael Leite Xavier, sou artesão e moro em uma cidade chamada Poção, localizada no interior de Pernambuco. Minha história com a renda começou por volta dos meus 7 anos, venho de uma família onde todas as mulheres trabalhavam com a renda renascença e como um bom curioso que sou, sempre tentava aprender, até que um dia, me apaixonei por um galo que mudava de cor, dependendo do clima. O encontrei na revista da Avon (galo que tenho até hoje!) porém naquele tempo não tinha condições de comprar, foi daí que tive a idéia de aprender a alinhavar o lacê para poder comprá-lo, minha avó me ensinou como fazia e foi daí que consegui juntar o dinheiro para comprar, naquela época tive que alinhavar 6 peças que até então, era a 1,00 real.

O tempo foi passando e minha curiosidade aumentava, então minha mãe e minha avó resolveram me ensinar, e com o tempo fui praticando e aperfeiçoando cada vez mais, porém sempre tive vergonha que outras pessoas me vissem fazendo renda, por ter sido enraizada na tradição e costume de que só as mulheres pudessem trabalhar na renascença.

 

Sempre achei que faltava alguma coisa, achava a renda renascença muito simples para ser apenas peças de casa ou moda, principalmente a falta de peças de roupas masculina em renda. Foi então que comecei a criar minhas próprias roupas feitas em renascença, e a corrigir riscos que estavam tortos ou até mesmo faltando partes. Sempre fui muito apaixonado por arte, e pensava em trazer um novo olhar para a renascença, mas até então não tinha me dedicado exclusivamente a isso, até que um dia fiquei sabendo do curso “Mãos que criam” oferecido pela (Secretaria do trabalho, emprego e qualificação – Seteq. Governo Federal – Ministério da Economia e a Megaquality Brasil) e através de uma amiga, que me incentivou a participar, resolvi fazer minha inscrição, mas não contava que até então eu seria o único homem a participar entre todas as alunas!

O tempo foi passando e com ela a vergonha, porém ao término do curso teríamos que expôr nossas peças no dia do encerramento. E foi aí que vi a oportunidade de mostrar para as pessoas que a renda poderia ser muito mais do que só peças de roupa, uni a renascença a sua verdadeira essência, a arte.

Com o foco voltado para o dia do encerramento do curso, vi alí a oportunidade de trazer um pouco do que já vinha imaginando e surpreender com algo novo e totalmente diferente dos tradicionais, mas nem tudo foi do jeito que eu gostaria. Tive dificuldade com a moldura do meu quadro para a exposição, eu não tinha condições de fazer uma moldura sofisticada, então utilizei da criatividade para produzir minha própria moldura.Tendo isso em vista, já que tinha madeira e um serrote em casa (e diga-se de passagem, não era novo, tive dificuldade em dobro). Em meio a muitas noites em claro, imaginando as melhores formas de desenhos da renda na releitura, nasceu a obra. Com a renda e o acabamento com o tecido de linho montado na moldura o trabalho estaria finalizado, só não imaginava que ali seria apenas o começo da minha vida de artesão. O quadro que eu escolhi para expor foi o “Abaporu” de Tarsila do Amaral, acredito que não fui eu que escolhi o quadro, e sim o quadro que me escolheu. Vi nele tudo o que queria mostrar através da renda; uma obra de arte, a representatividade do Nordeste, da cultura e da tradição em uma mesma obra.

Como fruto do meu trabalho, fui convidado a participar do 15º salão do artesanato brasileiro que acontecerá em Brasília. Estou muito ansioso e feliz por esta oportunidade.

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